segunda-feira, janeiro 31

Caneta e papel.

Ps: Do meu diário pessoal.

Esperei e esperei, primeiro esperei 24, depois esperei dias, depois horas, minutos. Esperei, esperei.
Os ombros curvaram, os olhos entraram um dentro do outro, as músicas acabaram, as letras se foram, os dedos cansaram.
Andanças de um ladro pro outro, uma fumaça que enevoa tudo a volta, e eu que nunca escrevo poesia, me vi nas frases. Minhas.
E os dedos voaram, as lágrimas caíram, e uma história a contar. Ninguém pra ouvir.
De repente me vi de volta ao piano mudo, o olhar perdido no mar, como se atravessasse as montanhas para ver. Mas nada vi. Nada havia.
Resolvi por pura falta de coragem voltar a caneta, somente para rabiscar e o tempo passar, o tempo que sempre foi meu maior vilão.
Carreguei um quadrado pra lá e pra cá, arrastei as chinelas, quis tomar um café mas o pó acabou. Acabou o azul do oceano, acabou o azul do céu, nessa noite não tem lua.
E eu me tornei invisível, pois nem eu me via, e o que as pessoas viam em mim, não viam.
Uma sopa esquecida no fogão, um cigarro nos dedos, uma caneta e um papel, sou capaz de arrastar os dias. Incapaz de desenhar as noites.
Estiquei o pescoço para ver através da tela, mas esqueci meus óculos na pia.
E eu queria aspirar o dia, queria dormir as noites, mas dormir sempre me deu medo, fugitiva da cama.
Reviro os olhos pra dentro e lá vejo, eu ando, dois passos pra frente e um pra trás, e eu tenho uma alergia a dor, uma alergia que coça dentro do pulso.
E eu nunca tive a primeira rosa, e também nunca tive as mãos pequenas, por isso sempre tive medo de tocar as coisas, fechar os dedos.
Mas nunca disse, eu também quero conhecer a neve.
E circulei a neve dentro da cabeça e juntei a areia, fiz minha casa, tranquei as portas, respirei pra dentro e guardei.
Guardei tão bem guardado que jamais alguém o poderia retirar, a mim podem retirar tudo, menos a neve a areia e o sal.
Permaneci trancada, esqueci que a água, leva a areia o sal e a neve, minha pobre casa se foi.
Olhei pro sol e fiquei cega, cega na cidade dos cactos.
Me sentei com medo de andar, fiquei sentada no deserto a espera.
Ninguém veio, mas viram a fumaça que saia do meu cabelo, a chuva caia e construíram enfim, um muro através de mim.
E respirei muita fumaça, nos fechemos de repente e o pulmão a gritar, a boca falando muda, me deixem aqui, me deixem aqui para morrer.
Fiquei tanto tempo sem falar que esqueci o idioma do mundo, comecei a inventar, inventei tanto que achei que tinha uma casa de novo, inventei que sabia dançar tango.
Inventei balas de morango sabor cigarro.
Inventei liberdade sem me movimentar e resolvi me levantar, cheguei a uma aldeia, mas não me deixaram entrar, nada tinha a ofertar, mostrei meus dedos nus, meu bolso vazio, falei: sei escrever, sei escrever!!!!!!
Me deixaram ficar, mas as palavras saíram todas assim, letras desconexas, ninguém entendeu, mas eu entendi tudo. Eu entendi enfim. E fui, gritando pra dentro, me deixem aqui para morrer.

2 comentários:

'Lara Mello disse...

Adoreiii! Tão diferente da Crystal que costumamos ver.. Lindo seu texto.. Bju!

Madame disse...

Que lindo, adorei!