terça-feira, janeiro 15

Descrevendo uma viagem sem drogas.

Levantei e fui tomar banho, quando me deu um estalo... o que estou fazendo aqui? Olhei tudo em volta e apesar de tudo ser meu me deu uma estranha sensação de não pertencer ou como se isso tudo não fosse meu, ou que na verdade isso tudo nem existia, era como uma viagem longa demais onde eu descrevia sei lá como seria minha casa no dia que mudasse pra cá. Mas eu me mudei pra cá oras, meu cérebro repetia incessantemente, essa é a sua casa Cristal, você mora aqui sozinha a quase um ano, não percebeu? Não percebi.
Não, não percebi oras, percebi que as contas chegavam e que eu ia trabalhar, mas acho que não percebi realmente que essa casa é minha, que coisa mais estranha, eu nem estou bêbada! Onde eu estava vivendo, no passado ou no futuro? Não eu não entendi muito bem essa coisa dessa casa ser minha, me repetia.
Deve ter sido aquele treinamento que sugou uma parte do meu cérebro que não reconhece a própria vida, foi me dando uma neurose de que eu não estava aqui e isso era só  minha imaginação, que acordaria no sufocante calor do Ridijaneiro e que amanhã voltaria a trabalhar na minha antiga empresa e tinha um processo grande de vendas para X empresa do qual não podia me esquecer e isso me angustiva.
Cristal isso aqui é real mulé maluca, você não está viajando na maionese, você mora aqui e não no Rio, e não tem processo nenhum que você não pode se esquecer. Porra, eu não sou doida, essas paredes são reais, isso tudo é real (nessa hora me apoiei na geladeira, que é muito real), preciso de um cigarro, sentei no banco e acendi um, acho que o cigarro foi me carregando de volta pro corpo e lembrei que isso tudo é de verdade, que essa cortina é muito de verdade, que tudo aqui é muito de verdade e é muito meu até eu morrer, fui me acalmando dizendo que a porta estava trancada e que está tudo bem, essa era minha casa, minha mesmo, e eu estava em segurança, e que precisava tomar um banho, que era o que ia fazer inicialmente, meio zureta pensei "preciso descrever isso para que não me esqueça" porque foi tipo um sonho de olho aberto!
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Tem mais detalhes que não consegui captar agora, mas foi extremamente louco. E legal. Foi legal saber que essa casa é minha e tudo isso é muito meu, só se eu morrer amanhã que não. E eu moro em Minas e não tem nenhum grande processo me esperando na minha empresa, e não tenho grandes responsabilidades no meu velho novo trabalho, mas isso não é ruim, é bom, sei lá, é um começo. Um recomeço, mais um. Estou louca para ver o sol brilhar dentro de mim, e tipo sentir o que senti hoje é como se um pequeno mormaço se aproximasse, falando de novo "não desista, não desista." E estou feliz, pela primeira vez em muitos dias, estou genuinamente feliz, aposto que vou dormir bem hoje e acordar renovada amanhã.

Um comentário:

Camila Cantanhede disse...

Cristal, eu tenho te entendido taaanto! Sinto isso tb, parece que é a gente prestes a enlouquecer, se descobrindo nesse mundo. E estar só é quase como ser livre. Fica bem.
Camila